Uma classe de compostos químicos sintéticos utilizada durante décadas como retardante de chama continua a representar uma ameaça significativa para a saúde ambiental no Médio Oriente e Norte de África (MENA), apesar de ter sido proibida ou progressivamente eliminada em grande parte do mundo.
O alerta surge num estudo publicado na revista científica Environmental Research, liderado por investigadores da Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, que analisou a presença de éteres difenílicos polibromados (PBDEs) em vários países da região.
Estes compostos foram amplamente utilizados em equipamentos eletrónicos, eletrodomésticos, veículos, mobiliário e materiais têxteis devido à sua capacidade de retardar a propagação do fogo. Contudo, acabaram por ser associados a impactos negativos na saúde humana e nos ecossistemas, levando à sua restrição através de acordos internacionais.
Apesar disso, os PBDEs continuam a persistir no ambiente. Muitos produtos antigos que contêm estas substâncias permanecem em circulação e os compostos podem também ser encontrados em artigos produzidos a partir de plásticos reciclados, incluindo utensílios de cozinha e brinquedos infantis.
“Em todo o Médio Oriente e Norte de África, a poluição ambiental é frequentemente discutida através de pressões visíveis, como a urbanização, a expansão industrial, a escassez de água, a gestão de resíduos e o rápido crescimento das infraestruturas”, afirma Khaled Abass, professor de Saúde Humana e Alterações Climáticas da Universidade de Sharjah.
No entanto, acrescenta o investigador, existe uma ameaça menos visível, mas cada vez mais relevante: “a persistência de substâncias químicas herdadas do passado, presentes em produtos de consumo, resíduos eletrónicos, sedimentos, solos e ambientes interiores”.
A revisão sistemática identificou níveis de contaminação muito variáveis entre os diferentes países e ambientes analisados, com concentrações particularmente elevadas em zonas urbanas e industrializadas.
Os investigadores concluíram que os PBDEs continuam presentes no ar, na água, nos solos, nos sedimentos, nas poeiras domésticas e em organismos vivos, refletindo décadas de utilização destes compostos e a sua elevada persistência ambiental.
Um dos resultados mais relevantes do estudo foi a ampla presença do composto BDE-209 em solos e sedimentos. Segundo Khaled Abass, estes ambientes funcionam como verdadeiros arquivos químicos do passado.
“Em termos simples, os sedimentos e os solos podem funcionar como arquivos químicos de longo prazo, preservando evidências da utilização passada destas substâncias e continuando a atuar como potenciais fontes de exposição”, explica.
A investigação analisou 38 estudos realizados em sete países da região. A Turquia concentrou a maior parte dos dados disponíveis, seguida do Kuwait. Já países como Tunísia, Marrocos, Bahrein, Irão e Egito continuam pouco representados na literatura científica, o que dificulta uma avaliação completa da dimensão do problema.
Para o investigador, a falta de informação não significa ausência de contaminação. “A ausência de dados não deve ser confundida com ausência de contaminação. Pelo contrário, pode simplesmente refletir limitações na capacidade de monitorização, nas infraestruturas e no investimento em investigação em várias partes da região MENA”, alerta.
Além da contaminação ambiental, os cientistas destacam a importância dos ambientes interiores. Casas, escolas, escritórios e oficinas de reparação eletrónica podem funcionar como reservatórios de PBDEs, sobretudo quando contêm grandes quantidades de equipamentos eletrónicos ou materiais tratados com retardantes de chama.
As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis, uma vez que a ingestão acidental de poeiras contaminadas constitui uma das principais vias de exposição.
Os autores defendem que o problema deve ser encarado como um desafio de gestão ambiental à escala regional e não apenas como uma questão de contaminação química isolada.
“Os PBDEs ligam questões como a segurança dos produtos, os resíduos eletrónicos, a reciclagem, a exposição em ambientes interiores, as emissões industriais, a contaminação dos sedimentos e os riscos para a cadeia alimentar”, refere Khaled Abass. “A sua gestão exige uma monitorização coordenada do ar, da água, dos solos, dos sedimentos, das poeiras e dos organismos vivos.”
O estudo deixa ainda um aviso para os programas de reciclagem e economia circular em expansão na região. Segundo os investigadores, sem mecanismos de controlo adequados, materiais reciclados podem reintroduzir substâncias perigosas em novos produtos de consumo.
“Sem uma verificação da presença destes retardantes de chama herdados do passado, os materiais reciclados podem tornar-se uma via de reintrodução de substâncias perigosas em produtos de consumo e em ambientes interiores”, conclui o investigador.









