O reino escondido: Como os fungos governam o mundo

Debaixo da terra, na nossa pele, nos estômagos de ruminantes, na comida que metemos à boca escondem-se organismos que podemos não ver, mas que são parte de nós e podem ser os nossos maiores aliados ou piores adversários.

Filipe Pimentel Rações

O mundo natural assenta sobre uma rede de ligações entre inúmeras formas de vida. Para os mais atentos ao que se desenrola à sua volta e para os mais curiosos sobre como o nosso planeta realmente funciona, essa ideia será, porventura, já uma trivialidade. Contudo, o que poderá não ser assim tão banal é a dimensão dessa rede e quem a tece.

Tal como acontece nas culturas tradicionais animistas, nas quais se acredita numa continuidade dos espíritos entre todos (ou quase todos) os seres vivos, também a Terra, de um ponto de vista físico e biológico, é marcada por uma continuidade que, amiúde, está além da nossa capacidade, ou da nossa vontade, de ver e de olhar com mais atenção.

Líquen da espécie Xanthoria parietina no tronco de uma oliveira. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Se esta noção lhe parecer demasiado abstrata, vamos a um exemplo que será, certamente, mais familiar para muitos. Pense o leitor no primeiro filme da saga “Avatar”, do realizador James Cameron. Todas as criaturas vivas no planeta Pandora integram um todo muito maior do que a mera soma das partes. Os Na’vi, o povo nativo, comungam com os seus antepassados e com a divindade Eywa ligando-se à Árvore das Almas através do apêndice que têm escondido nos seus longos cabelos, com o qual podem também fundir consciências com os animais que vivem nesse mundo. Todos os seres vivos estão ligados entre si e todos dependem uns dos outros.

Um exemplo da ficção científica, por certo, mas um que nos ajudará a entender melhor como os fungos, esses organismos misteriosos e mal compreendidos, cosem uma teia que liga humanos e não-humanos, num novelo de vida que vitaliza o mundo.

À tarde no museu

Estávamos a 21 de janeiro. Eram quase duas da tarde. Lá fora, o céu cinzento e chuvoso não deixava ainda adivinhar o temporal que uns dias depois se abateria sobre o país. No átrio do Museu de História Natural e da Ciência, em Lisboa, as paredes antigas e cheias de memória faziam ecoar as vozes excitadas de um grupo de pré-adolescentes que se preparava para uma visita escolar, acompanhado pelos professores.

Ficara de me encontrar com Ireneia Melo, curadora da coleção de fungos do museu. À hora combinada, a bióloga faz-me sinal ao longe e encaminhamo-nos pelos corredores frios, percorrendo zonas fora do alcance do público, os “bastidores”, se quisermos.

Apesar dos seus setenta e muitos anos, já a empurrar para os oitenta, caminhava com uma passada enérgica e determinada que desafiava os estereótipos etários. Após curvas e contracurvas por passagens estreitas, com sinais de trabalhos de remodelação, atravessamos o jardim botânico e entramos num outro edifício adjacente ao museu. Subimos alguns lanços de escadas e chegamos a um pequeno átrio onde à nossa direita surge uma porta dupla metálica, como se escondesse a entrada para um cofre. O herbário do museu, onde estão guardados alguns dos exemplares de botânica e micologia a cargo da instituição.

Ireneia Melo procura espécimes de fungos no herbário do Museu de História Natural e da Ciência em Lisboa. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Lá dentro o ar é frio e tudo parece ter um aspeto antissético. Ao centro uma mesa metálica. De um lado, uma fila de armários de madeira de um amarelo-pálido com um metro e pouco de altura estende-se de uma ponta à outra da sala. Dezenas de pequenas gavetas, cada uma com um retângulo de papel com rabiscos quase indecifráveis, indicando o que continham. Do outro lado, o que parecia uma parede metálica de aparência imponente, formada por oito ou nove blocos retangulares, cada qual com uma manivela com três braços. Eram estantes ocultas, que, rondando as manivelas, desvendavam os segredos que continham: mais espécimes de plantas, de fungos e de líquenes recolhidos há décadas ou mesmo séculos e que eram ali preservados.

Ireneia Melo, nascida e criada em Angola, chegou ao museu em dezembro de 1969. Teve como primeiro diretor Carlos das Neves Tavares, um dos maiores nomes da liquenologia ibérica. Recorda-se que, quando lá iniciou a sua atividade, o herbário era ainda uma ínfima fração do que agora, muito por causa não apenas de recolhas, mas também de trocas com instituições de outros países, dessa forma enriquecendo-se as respetivas coleções com uma grande diversidade de espécimes.

Myriostoma coliforme. Foto: Ireneia Melo & José Cardoso.

Na coleção do museu estão muitos tipos, ou seja, espécimes que foram usados para descrever novas espécies ou subespécies. São os “espécimes-zero”, os precursores de novas identificações taxonómicas e relíquias valiosas.

Por vezes, existem duplicados desses tipos (é colhido mais do que um exemplar pelo mesmo coletor, no mesmo local e na mesma altura), e podem ser enviados para instituições por todo o mundo. Dessa forma, nessas instalações estilo “bunker”, preserva-se a diversidade do mundo das plantas e dos fungos, ou pelo menos parte dela, com mais do que uma instituição com duplicados do espécime-tipo. É como se fosse uma apólice de seguro: caso haja algum desastre, como inundações ou até guerras, não se perde tudo.

Ireneia vai até à fila de armários, abre uma das gavetas e de lá de dentro tira um pequeno envelope de papel acastanhado, com um rótulo branco na frente. No texto escrito à máquina, lê-se que se trata de um exemplar de líquene da espécie Teloschistes chysophthalmus. Fora recolhido por Carlos das Neves Tavares em 1966 na região da Beira Alta.

Fungos Peniophora rufomarginata, semelhantes a pedaços de papel velhos e esbranquiçado, num ramo apodrecido de carvalho. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Depois, vira-se para a parede de estantes metálicas, roda a manivela e surgem prateleiras cheias de caixas de cartão, também elas com rótulos que indicam as espécies nelas contidas. Volvidos alguns minutos de procura, a micóloga coloca em cima da pequena mesa ao centro da sala um envelope que diz que no seu interior tem exemplares de um fungo da espécie Peniophora rufomarginata. Foram recolhidos pela própria Ireneia Melo em 1996, na localidade de Arca, em Oliveira de Frades.

Dentro do envelope, selado num saquinho de plástico transparente, estão fragmentos de ramos de carvalho-alvarinho apodrecidos. Demorei a perceber o que era suposta estar a ver, até a bióloga me indicar umas pequenas manchas esbranquiçadas que faziam lembrar pequenos pedaços de papel velho. Era o fungo, do grupo dos decompositores de madeira, que nas florestas decompõem a madeira morta, impulsionando o ciclo infindável da vida e da morte. Esses fungos decompõem a matéria orgânica em elementos simples, retiram o que precisam para si e o resto devolvem à terra, enriquecendo-a.

Pequenos organismos inconspícuos, nada a ver com os cogumelos que estamos habituados a ver em documentários, de cores garridas e aspetos quase alienígenas. É a prova da enorme diversidade que caracteriza o reino dos fungos, que só recentemente foram separados das plantas na ciência taxonómica.

Um reino jovem e repleto de maravilhas

Só em meados do século XX é que os cientistas declararam que os fungos pertenciam a um reino só seu, separando-os, por fim, das plantas. Poderá parecer estranho, mas os animais estão mais próximos dos fungos em termos evolutivos do que das plantas. Acredita-se que os animais e os fungos tenham partilhado um antepassado há 1,3 mil milhões de anos.

Um cogumelo da espécie Volvopluteus gloiocephalus. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Precisamente por ser um reino ainda muito jovem, comparando com as plantas e os animais, as estimativas sobre quantas espécies de fungos existem no planeta estão ainda longe do consenso. Estão atualmente descritas aproximadamente 150 mil espécies de fungos em todo o mundo, mas acredita-se que muitas mais estão ainda por descobrir. Em 1991, o micólogo britânico David Hawksworth tinha estimado que cerca de 1,5 milhões de espécies estavam por descrever, e 20 anos depois uma outra estimativa já apontava para os cinco milhões. Contudo, em tempos recentes, sobretudo na última década, avanços em técnicas de sequenciação genética fizeram disparar as estimativas, que podem ultrapassar os 10 milhões.

“Os fungos representam um dos grupos de organismos mais diversos do planeta, com um papel essencial nos processos e funcionamento dos ecossistemas”, escrevia em 2022, na revista ‘Fungal Diversity’, Kevin Hyde, do Centro de Excelência em Investigação Fúngica da Universidade Mae Fah Luang, na Tailândia.

Líquen Xanthoria parietina e, na secção inferior direita, líquen Teloschistes chrysophthalmus, com apotécios cor de laranja onde são produzidos os esporos. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Todos os anos são descritas, em média, perto de 3.000 novas espécies de fungos, o que, só por si, mostra a diversidade quase indizível deste reino. As suas formas são imensas, tal como são os estilos de vida que levam e as relações que têm com o ambiente e com os outros organismos à sua volta. Existem em praticamente todos os tipos de habitat e podem existir sozinhos ou em associações com animais, plantas, algas e até bactérias. Podem ser importantes aliados, vizinhos pacatos ou terríveis adversários.

Uma diversidade imensa

Quando pensamos em fungos é normal que a nossa mente fuja para os cogumelos. Contudo, ainda que todos os cogulemos sejam fungos, nem todos os fungos produzem cogumelos.

De muitas formas e cores, os cogumelos são as estruturas de alguns fungos que servem para dispersar as suas células sexuais, os esporos. Não se sabe ao certo o porquê de uma tão vasta gama de tipos de cogumelos. Sabe-se que as plantas, por exemplo, evoluíram as suas flores para atraírem certos tipos de animais polinizadores, com cheiros, cores e sabores distintos. Mas a quem querem os fungos agradar com os seus cogumelos? Permanece um mistério.

A Amanita muscaria, também conhecida como mata-bois, é talvez o tipo de fungo mais conhecido. Com um chapéu, ou píleo, vermelho-vivo ou alaranjado, salpicado de pintas brancas, esse cogumelo é presença assídua em contos de fadas. Contudo, pode ser venenoso não se tiver o devido cuidado. Isto, porque, como nos diz Ireneia Melo, tudo em moderação é uma experiência. Basta perguntar às lesmas, que se alimentam de A. muscaria mas não parecem ser negativamente afetadas por ela.

Fungo Clathrus ruber. Foto: Mdakin / Wikimedia Commons.

Alguns cogumelos com propriedades psicadélicas podem ser tóxicos e fatais se consumidos em excesso, mas, com peso e medida, podem servir para ampliar os nossos sentidos e aceder a outros mundos, como o faziam e talvez ainda façam xamãs de povos tradicionais.

Além desse cogumelo fantasioso, há um sem-número de muitos outros, como as esferas ocas e abertas quais bocas escancaradas de gargantas cor-de-laranja do Caloscypha fulgens, o “barrete” violeta e corpo retorcido do Laccaria amethystina, o topo alvo e quase translúcido do Oudemansiella mucida, o corpo laranja fluorescente dos Favolaschia, que parecem encimados por favos de mel, ou a estrutura mistificante dos Clathrus ruber.

Estes são apenas alguns dos muitos e muitos exemplos de cogumelos visualmente exuberantes. Há, claro, outros mais discretos, de tonalidades mais desvanecidas, mas que, contudo, não deixam de ser extraordinários pelas suas estruturas e formas. Uns têm chapéus que apontam para o céu, outros parecem tê-los vestido ao contrário, e outros têm-nos aplanados. Como se não bastasse, uns cogumelos têm, na face inferior do chapéu, lâminas, como os míscaros-amarelos e as amanitas-dos-césares. Outros têm agulhas, como os Hydnum repandum, outros têm pregas tipo rugas, como os cantarelos, e ainda outros têm poros debaixo do chapéu. Todas essas estruturas são responsáveis pela produção e libertação dos esporos.

Há também os que parecem bolbos, tipo batatas, que no seu interior têm incontáveis esporos que são libertados por pequenas aberturas, quando amadurecem e rompem ou quando pisados, como os do género Lycoperdon, ao qual pertencem os “bufas-de-lobo”.

Cogumelos de Laccaria amethystina. Foto: Arto Kemppainen / Wikimedia Commons.

Seriam precisas muitas mais páginas do que a totalidade das que constituem esta revista que tem nas mãos para dar a conhecer um décimo da diversidade conhecida dos fungos.

O cogumelo é apenas uma porção ínfima do fungo, que irrompe pelo solo e se nos dá a ver. É somente “a ponta do icebergue”, pois o resto esconde-se debaixo da terra, longe dos nossos olhos humanos e dos de muitos outros animais.

Ao contrário das plantas, os fungos não são capazes de produzir o seu próprio alimento através da fotossíntese e as suas células têm paredes feitas de quitina, a mesma substância de que é feito o exosqueleto dos insetos e de outros artrópodes.

Assim, os fungos têm de obter o seu alimento fora dos seus corpos, tal como os humanos. Para isso, desenvolvem as hifas, filamentos semelhantes a raízes, muito finas, que serpenteiam pelo solo, formando, no seu conjunto, redes conhecidas como micélios.

Apesar de serem tão ou mais finas do que um fio de cabelo humano, as hifas têm uma força inesperada e são “um aparelho formidável”, diz-nos Ireneia Melo. São capazes não só de penetrar no solo, mas também de romper o asfalto para abrir passagem para um cogumelo, e de absorver e armazenar nutrientes e água. Embora possa não saber, muito provavelmente já viu as hifas de um fungo, nalguma fruta apodrecida lá em casa, pois formam algo parecido a algodão ou teias de aranha.

Fungo Phallus hadriani. Foto: Ireneia Melo.

“Têm muita força. Parece que não, parecem uma coisa tão frágil, mas não são”, explica com visível admiração. No seu conjunto, as hifas, organizadas em micélios, são poderosas. “A união faz a força”, sentencia.

Para lá dos cogumelos, os fungos assumem inumeráveis outras formas, desde semelhantes a pedaços de papel envelhecido, farelos de pão de tons alaranjados, manchas esbranquiçadas ou de um verde-acinzentado a cobrir, por exemplo, laranjas que apodrecem no solo. Podem ser multicelulares ou unicelulares, como as leveduras.

Alguns fungos vivem as suas vidas de forma independente, mas outros associam-se a outros organismos, em parcerias que podem beneficiar ambos ou que podem ser parasíticas, sendo bastante custosas para os hospedeiros.

Vidas partilhadas

Num exemplo flagrante de interdependência, alguns fungos juntam-se a plantas para poderem obter o alimento de que precisam. As plantas, seres fotossintéticos, produzem o seu próprio alimento, convertendo água e sais minerais em seiva elaborada, que percorre toda a planta, das folhas às raízes.

Alguns fungos são capazes de ligar as suas hifas e micélios às raízes das plantas, obtendo os açúcares de que tanto precisam. Em troca, o fungo dá à planta, por exemplo, azoto e fósforo, essenciais ao seu crescimento, bem como outros nutrientes que recicla. A essa união do micélio com as raízes dá-se o nome de micorriza, pelo que os fungos que fazem essa associação são apelidados de micorrízicos, como os que pertencem aos grupos dos basidiomicetos e ascomicetos, por exemplo.

Os cantarelos, como este Cantharellus alborufescens, formam associações simbióticas com vários tipos de plantas. Foto: Ireneia Melo.

As micorrizas tornar-se tão grandes que podem ligar toda uma floresta numa vasta rede social, pois as micorrizas podem também ser usadas como canal de comunicação entre várias plantas. Por exemplo, se uma planta está a ser atacada por algum inseto prejudicial, envia sinais de alerta através da rede micorrízica para outras plantas, como que para erguerem defesas. Quando se juntam com as raízes das plantas, os fungos ampliam o alcance das próprias raízes do hospedeiro, ajudando-o a aceder a mais água e nutrientes e, assim, a torná-lo mais resiliente a alterações ambientais que, sem essa associação, poderiam ser fatais.

Estima-se que entre 80% e 90% de todas as plantas existentes no planeta, incluindo grandes árvores das florestas e culturas agrícolas de grande valor para os humanos, dependem dessa relação simbiótica com os fungos. Sem ela, acabariam por definhar e poderiam mesmo morrer.

Os fungos podem também associar-se a outros organismos e ‘criar’ um novo. Os líquenes são associações simbióticas estáveis entre fungos e algas ou cianobactérias. Disso são exemplo as famílias Parmeliaceae, Teloschistaceae, Chrysothricaceae, Umbilicareaceae e Physciaceae, entre outras.

Explica-nos Ireneia Melo que os líquenes são criados quando os fungos e algas unicelulares ou cianobactérias se unem, passando a funcionar como um só, sendo o fungo a estrutura principal e as algas ou cianobactérias os parceiros fotossintéticos. Podemos achar que é uma situação de reféns, mas facto é, elucida a micóloga, que o fungo confere-lhes proteção contra a secura ou danos físicos, por exemplo.

Líquen da espécie Flavoparmelia caperata (no centro da fotografia), no tronco de uma árvore na Serra da Freita, em junho de 2024. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Os líquenes são a simbiose perfeita, sem dúvida, mas o fungo é o protagonista, o que se vê pelo facto de, por vezes, os líquenes serem chamados de fungos liquenizados. E, na altura da reprodução, as estruturas reprodutivas são as do fungo, não as das algas ou cianobactérias. “Trabalham em conjunto, mas quem se reproduz é o fungo”, diz Ireneia Melo, “o fungo é que é sempre o mesmo”, e os seus descendentes depois têm de se associar às suas próprias algas ou cianobactérias.

Além dessas associações benéficas, há também as que são catastróficas para as plantas. O Ustilago maydis arruína culturas de milho, a Puccinia graminis arrasa o trigo e outros cereais, os fusários, como o Fusarium circinatum, investem contra os pinheiros e podem ser fatais. A título de exemplo histórico, Ireneia Melo recorda-nos o episódio trágico da fome da batata na Irlanda, em meados do século XIX.

Danos causados no milho por fungo Ustilago maydis. Foto: Janericloebe / Wikimedia Commons.

Na altura, quase metade da população irlandesa estava totalmente dependente das batatas como fonte de calorias e igualmente dependentes somente de uma ou duas variedades.

Reduzida diversidade genética faz com que as plantas, e as batatas que produzem, fiquem altamente vulneráveis às mesmas infeções. Reza a história que um bolor trazido inadvertidamente da América do Norte, o Phytophthora infestans, também conhecido como míldio da batateira, propagou-se pelas culturas e fê-las falhar durante vários anos seguidos. Quase um milhão de pessoas morreu por causa da ação de um organismo mínimo.

Os fungos criam associações também com os animais, para o bem ou para o mal deles. Pode já pensar, leitor, nas infeções fúngicas conhecidas de muitos certamente, mas vai muito além disso.

Certos animais ruminantes, como vacas, ovelhas e cabras, têm nos seus estômagos altamente especializados fungos que os ajudam a descompor e digerir as duras fibras vegetais das quais se alimentam. “Se não tivessem certo tipo de fungos no seu aparelho digestivo para ajudarem a digerir, para ajudarem a decompor, como é que seria?”, questiona Ireneia Melo.

As formigas-cortadeiras têm uma relação especial com o fungo Leucoagaricus gongylophorus. Cultivam-no em divisões escuras e húmidas dos seus ninhos, alimentando-o com pedaços de folhas que recolhem pela floresta. O fungo vai crescendo e as formigas vão retirando pedaços para alimentarem a colónia, mas sem pôr em risco a sobrevivência do fungo, como recolher uma maçã de uma árvore. Essa é uma relação com mais de 60 milhões de anos, que precede a agricultura humana, e é de tal forma forte que alguns estudos sugerem que o L. gongylophorus, depois de tanto tempo de evolução ao lado das formigas-cortadeiras, já não é capaz de viver sem elas, literalmente.

Fungo Leucoagaricus gongylophorus cultivado por formigas-cortadeiras da espécie Atta texana. Foto: Blake Bringhurst / Wikimedia Common (licença CC BY 4.0).

Os nossos corpos humanos são também constelações fúngicas. Temo-los nas nossas bocas, no sistema gastrointestinal, nas mucosas do nariz, na nossa pele. Fazem parte de nós e ajudam no bom funcionamento dos nossos organismos. Mas podem também revelar-se poderosos inimigos, especialmente quando as nossas defesas estão fragilizadas e os fungos conquistam terreno. Além disso, podemos inspirar esporos que se alojam e crescem nos nossos pulmões, dando origem a perigosas infeções, e há também as mais familiares, como a candidíase ou o pé-de-atleta.

As associações entre fungos e animais podem assumir contornos ainda mais tenebrosos. O fungo aquático Batrachochytrium dendrobatidis ataca a pele dos anfíbios, cobrindo-a com uma película esbranquiçada, e é responsável por dizimar as populações de mais de 500 espécies. O Pseudogymnoascus destructans tem sido devastador para os morcegos, que causa o que é conhecido como “doença do nariz branco”.

Morcego da espécie Myotis lucifugus com doença do nariz branco, numa gruta nos EUA em 2009.
Foto: Marvin Moriarty/USFWS (Wikimedia Commons).

Talvez os fungos mais sombrios sejam os do género Cordyceps, também popularmente conhecidos como “fungos zombie”. Há centenas de espécies de Cordyceps, que têm uma predileção por insetos, como formigas e lagartas. O fungo invade a sua presa quando os seus esporos se depositam no corpo da vítima ou são por ela acidentalmente ingeridos. Uma vez no interior, o fungo cresce rapidamente, estendendo as suas hifas pelo corpo do hospedeiro e assumindo o controlo do animal.

Em alguns casos, o fungo leva a sua presa até a um ramo alto, onde matá-la-á e emergirá do seu corpo como uma planta a brotar da terra. Dessa posição privilegiada, conseguirá disseminar os seus esporos a uma maior distância do que se o fizesse ao nível do solo.

Fungo Cordyceps a emergir do corpo já sem vida de um gafanhoto. Foto: The Next Gen Scientist / Wikimedia Commons (licença CC BY 2.0).

Os modos de vida dos fungos em associação com outros seres são imensamente diversificados, tal como o são as suas formas e cores, não deixando espaço para dúvidas de que este é um reino de poderes fantásticos e também terríveis que não destoaria em obras literárias ou cinematográficas de ficção científica. Não é por acaso que os fungos têm inspirado muitas histórias conhecidas de todos nós hoje, sendo uma das mais recentes a série televisiva “The Last of Us”.

Como tudo na vida, o mundo dos fungos tem um lado negro e um lado da luz, mas Ireneia Melo diz-nos que, para ela, “no prato da balança pesa bem mais o lado luminoso”.

Eles estiveram sempre lá

A história da espécie humana está repleta de fungos, quer os vejamos quer não, e eles têm estado por detrás de grandes avanços científicos e até culinários, culturais e económicos, que revolucionaram e continuam a tocar indelevelmente as nossas vidas.

É possível que os humanos tenham começado a usar fungos sem que inicialmente soubessem que o estavam a fazer. É possível que, algures há vários milénios, os nossos antepassados tivessem guardado restos de fruta numa caverna e que alguma mosca, transportando leveduras nas patas, tivesse neles pousado. Dias depois, algum humano ancestral mais destemido terá provado a fruta fermentada e gostado do sabor e, claro, do efeito. É uma tirada anedótica, mas muitas das grandes descobertas da nossa história foram meros acasos.

Conta-nos Ireneia Melo que há milhares de anos na Ásia já se colhiam e ressecavam cogumelos Ganoderma, que eram usados para fazer chá e tomar depois das refeições, servindo como uma cura para muitos males. Também os egípcios usavam leveduras para transformar a água de menor qualidade em cerveja e hieróglifos mostram imagens com pessoas a carregarem cestos com cogumelos, cujo consumo estava reservado aos faraós, pois permitiam-lhes falar com os deuses, fruto de propriedades alucinogénias.

“Era uma comida de outro mundo”, graceja Ireneia Melo.

Milhares de anos depois, em 1928, Alexander Fleming, regressado ao seu laboratório em Londres depois das férias, descobrira que a caixa de Petri onde tinha amostras de bactérias Staphylococcus fora colonizada pelo fungo Penicillium notatum. O cientista ficara fascinado pelo facto de o fungo travar o crescimento e disseminação das bactérias e assim nasceu a penicilina, uma das grandes revoluções da Medicina.

Fungo Penicillium digitatum, ou bolor verde, numa laranja. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Os fungos permitiram também avanços, por exemplo, no tratamento do colesterol alto, com estatinas descobertas em fungos Aspergillus terreus e em bolores que crescem em citrinos. As ciclosporinas, usadas em casos de transplantes para reduzir a resposta imunitária do recetor e evitar a rejeição do órgão, foram isoladas pela primeira vez no fungo Tolypocladium inflatum. A psilocibina é usada no tratamento de depressões, ansiedade e dependências e foi encontrada nos popularmente conhecidos “cogumelos mágicos”, que têm propriedades alucinogénias e que são muito populares entre os frequentadores de raves e amantes de experiências psicadélicas.

Pão, vinhos, cervejas, queijos Roquefort, Gorgonzola, Brie e Camembert, os agora na moda chás fermentados kombucha, algumas carnes curadas. Sem fungos não existiam.

Os queijos Roquefort e Gorgonzola, por exemplo, contêm fungos comestíveis como o Penicillium roqueforti, que lhes dão tonalidades azuladas. Foto: Towfiqu barbhuiya / Unsplash.

Os fungos podem também ser aliados fundamentais nos esforços de sustentabilidade da vida humana na Terra. Há fungos que estão a ser usados em projetos pioneiros para degradar plástico. Em 2017, cientistas do Paquistão e da China descobriram que um fungo da espécie Aspergillus tubingensis estava a decompor plástico num aterro sanitário em Islamabad. Fungos estão a ser usados em biopesticidas para reduzir os impactos dos insetos em culturas agrícolas e em biofertilizantes para enriquecer os solos. E estão também a servir como biorremediadores para limpar solos contaminados com metais pesados, combustíveis e até materiais radioativos.

Além de tudo isso, os fungos podem ser usados para produzir alimentos alternativos à carne, como é o caso da marca britânica Quorn, que usa Fusarium venenatum para produzir “micocarne”. Os fungos Trametes versicolor estão a ajudar a criar tijolos mais ambientalmente sustentáveis, leves, fortes e resistentes ao fogo. Outros estão a ser usados para produzir uma miríade de embalagens em alternativa ao plástico e ao cartão.

Como se não bastasse, os fungos (os comestíveis, claro) podem ajudar na segurança alimentar das populações humanas, especialmente em contexto de agravamento das alterações climáticas. São fáceis de cultivar, crescem rapidamente e são ricos em nutrientes, como vitaminas B, C e D, e minerais, como potássio, fósforo, cálcio, bem como fibra e proteína. Os fungos também ajudam no sequestro de carbono no solo, contribuindo para a mitigação dos efeitos das alterações climáticas.

Apesar da sua ubiquidade e enorme potencial para mudar ainda mais o mundo, os fungos, tal como tantos outros seres vivos no planeta, enfrentam ameaças que podem estar a pôr em risco os seus futuros e, assim, também os nossos.

Passado, Presente e… Futuro?

Descortinar os mistérios da origem da vida complexa na Terra não é tarefa fácil, e persistem ainda muitas dúvidas, mas parece ser relativamente consensual que a vida multicelular – organismos caracterizados pela cooperação entre várias células com funções específicas – terá evoluído de forma independente em cinco grandes grupos e momentos: os animais, as plantas terrestres, os fungos, as algas vermelhas e as algas castanhas.

Por causa dos seus corpos moles, registos fósseis de fungos são raros e podem não revelar grandes coisas. Contudo, uma investigação liderada pelo Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (Japão), publicada em outubro passado na revista ‘Nature Ecology & Evolution’, chegou a uma janela temporal sobre o surgimento dos fungos.

Usando o que chamam de “relógio molecular”, os cientistas recuaram no tempo para encontrar um antepassado comum a mais de uma centena de espécies de fungos. Ao analisarem traços genéticos comuns a diferentes espécies e percebendo quais delas foram as primeiras a adquiri-los, os cientistas conseguiram reconstruir uma história evolutiva.

Scutellinia scutellata. Foto: Ireneia Melo.

Neste trabalho, percebeu-se que os fungos atualmente vivos partilham um antepassado que existiu há entre 1.400 milhões de anos e 900 milhões anos, o que sugere que os fungos terão aparecido muito antes das plantas terrestres, que se pensa terem surgido há 470 milhões de anos.

Uma outra investigação, publicada um mês depois na revista ‘New Phytologist’, encabeçada por Christine Strullu-Derrien, do Museu de História Natural de Londres, revela que os fungos terão sido fulcrais para a colonização da terra firme pelas plantas. Muitas espécies vegetais não tinham ainda raízes quando deixaram a água, pelo que os fungos micorrízicos permitiram que se fixassem ao solo e dele conseguissem extrair nutrientes.

Assim, é muito provável que sem os fungos as plantas nunca tivessem abandonado os meios aquáticos e feito do planeta o que ele é.

Embora possam anteceder as plantas terrestres e os animais, os fungos hoje estão sob ameaça. Recentemente, foi atualizada a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e, pela primeira vez, dela passaram a fazer parte mais de mil espécies de fungos.

Das 1.032 até agora avaliadas, pelo menos 411 estão classificadas como ameaçadas de extinção: 48 Criticamente Ameaçadas, 129 Em Perigo e 234 Vulneráveis. A perda de habitat devido à rápida expansão urbana e agrícola é o fator que mais espécies de fungos ameaça, seguida pela poluição dos solos. Esses dois fatores são “sérias ameaças” na Europa, segundo a UICN.

Helvella crispa. Foto: Ireneia Melo.

A desflorestação para extração legal e ilegal de madeiras é também uma grande ameaça, bem como os efeitos das alterações climáticas. Sendo a humidade a fonte da vida dos fungos, um planeta mais árido ser-lhes-á certamente menos favorável.

“Embora os fungos vivam sobretudo escondidos sob o solo e dentro da madeira, a sua perda impacta a vida acima do solo que deles depende”, disse, à altura, Anders Dahlberg, especialista em fungos da UICN. “À medida que perdemos fungos, enfraquecemos os serviços de ecossistema e a resiliência que eles nos proporcionam, desde a resistência à seca e aos patógenos nas culturas e nas árvores até ao sequestro de carbono no solo.”

Também a sobre-exploração e o comércio desregulado podem pôr em risco a diversidade dos fungos e a sobrevivência de muitas das espécies desse reino. Num texto publicado em 2024 na ‘Conservation Biology’, um trio de investigadores defendia a importância de fortalecer os esforços de conservação dos fungos, especialmente ao nível do comércio.

“O desafio é reconhecer a importância dos fungos e reforçar a investigação científica para melhorar a compreensão sobre a sua biologia e ecologia, os efeitos do comércio nas suas populações e os impactos socioeconómicos do comércio”, escreviam Rodrigo Oyanedel, Marios Levi e Giuliana Furci.

O futuro do reino escondido dos fungos, sobretudo no contexto de crises planetárias galopantes face às quais a vontade política para lhes fazer frente parece estar a definhar, está na corda bamba, tal como está o de praticamente todos os grupos de seres vivos do planeta, incluindo a espécie humana.

Quando no final da década de 1960 chegou ao Museu de História Natural e da Ciência de Lisboa, Ireneia Melo recorda-se de pouco saber sobre fungos, pois a formação académica de então era parca no ensino sobre esses organismos. Desde então, avanços tecnológicos e científicos permitiram explorar como nunca antes esse mundo, por exemplo, através de técnicas de análise molecular, revelando espécies desconhecidas. No entanto, o estudo dos fungos continua a estar muito aquém do que seria preciso para realmente se conseguir ter uma imagem minimamente nítida de toda essa enorme diversidade.

Inonotus hispidus. Foto: Ireneia Melo & José Cardoso.

É preciso investir mais dinheiro e ter mais pessoas no estudo dos fungos, pois “é todo um mundo” ao qual “não lhe conhecemos o limite”. Diz-nos a curadora de fungos do museu que “é preciso aumentar o conhecimento sobre eles” e “ter pessoas que se dediquem a esse assunto”, porque “sem conhecer, nós não conseguimos proteger nada”.

Para isso, é necessário que “lá no alto”, nas cúpulas da liderança das nossas sociedades, haja quem se preocupe com os fungos “para estabelecer prioridade”.

“Sem o mundo vivo, do qual nós fazemos parte, não vamos existir. Não é só a plantar árvores que se restabelecem equilíbrios. As árvores precisam dos outros organismos para conseguirem sobreviver”, adverte Ireneia Melo.

*Reportagem publicada originalmente na revista de março de 2026.

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