Lagos na Amazónia atingem temperaturas extremas. Peixes e golfinhos em risco
A onda de calor e a seca sem precedentes que se registaram em 2023 na Amazónia transformaram os lagos do bioma sul-americano em autênticas “banheiras”. No Lago Tefé, onde vivem golfinhos raros e ameaçados de extinção, a água chegou aos 41 graus Celsius.
Num artigo publicado recentemente na revista ‘Science’, um grupo de investigadores liderado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (Brasil) diz que os fenómenos extremos que atingiram as águas amazónicas há dois anos resultaram numa “elevada mortalidade” de peixes e de golfinhos de água doce.
Entre o final de setembro e outubro de 2023, foram encontrados 209 cadáveres de botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e de golfinhos tucuxi (Sotalia fluviatilis). Ambas as espécies estão classificadas como globalmente “Em Perigo” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Além da elevada temperatura, a área do Tefé reduziu cerca de 75% entre 24 de setembro e 26 de outubro, com algumas zonas a ficarem com uma profundidade inferior a 50 centímetros. O aquecimento extremo terá sido causado por uma confluência de fatores: baixos níveis de água, pouco vento, intensa radiação solar e alta turbidez.
“Embora este estudo apresente dados de 2023, em setembro e outubro de 2024 outra seca extrema ocorreu na Amazónia central, com novos mínimos sem precedentes do nível da água e com o aquecimento severo da água dos lagos, associados a condições hidrológicas e meteorológicas semelhantes às observadas em 2023”, escrevem os cientistas no artigo.
Dos 10 lagos amazónicos analisados por esta equipa, através de dados de satélite e de modelos hidrodinâmicos, metade chegou a temperaturas acima dos 37 graus Celsius. A temperatura média das águas superficiais dos lagos tropicais durante o dia é de cerca de 29 ou 30 graus.
Os lagos na Amazónia têm vindo a aquecer cerca de 0,6 graus Celsius a cada 10 anos desde 1990, mas temperaturas acima da média têm sido mais frequentemente registadas durante a última década.
As condições extremas que afetaram a região em 2023 e 2024 exigem uma “melhor compreensão” de como a biodiversidade de água doce responderá a um “mundo em aquecimento” e sobre como “os impactos na natureza e nas pessoas podem ser previstos e geridos”, escrevem os investigadores.