Cientistas portugueses e cabo-verdianos descobrem berçário de tubarões na ilha da Boa Vista

Os investigadores encontraram na baía de Sal Rei uma zona frequentada por milhares de pequenos tubarões, alguns com apenas algumas semanas de vida, de espécies ameaçadas de extinção. E alertam que é preciso proteger a área das cada vez maiores pressões humanas.

Filipe Pimentel Rações

Na baía de Sal Rei, na ilha da Boa Vista, em Cabo Verde, dozes investigadores portugueses e cabo-verdianos descobriram uma zona de refúgio e desenvolvimento de tubarões juvenis, incluindo de cinco espécies que correm o risco de desaparecer completamente nos próximos tempos: o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini), o tubarão-de-pontas-pretas (Carcharhinus limbatus), o tubarão-doninha (Paragaleus pectoralis), o tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e o tubarão-leite (Rhizoprionodon acutus).

Tubarão-martelo é uma das espécies mais ameaçadas de extinção.
Foto: Vasco Pissarra (coautor do artigo)

A investigação, que decorreu entre 2016 e 2019, foi liderada por Rui Rosa, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que salienta, em comunicado, que “a identificação e proteção de áreas de berçário é crucial para a conservação dos tubarões, um dos grupos de animais mais ameaçados a nível mundial”.

A descoberta resultou da monitorização da captura acidental de tubarões nessa região de Cabo Verde, bem como do estudo de testemunhos e do conhecimento dos pescadores locais. Assim, os cientistas conseguiram descobrir qual a zona preferida pelos jovens tubarões, onde se podem desenvolver e crescer longe das ameaças e dos predadores do mar aberto.

Baía de Sal Rei, ilha da Boa Vista, em Cabo Verde, onde foi encontrado aquele que se considera poder ser o primeiro berçário multiespécies de tubarões da costa atlântica de África.
Foto: Vasco Pissarra (coautor do artigo)

Os investigadores acreditam que na baía de Sal Rei concentram-se mais tubarões juvenis do que em qualquer outra área costeira da ilha da Boa Vista. E sugerem que tal se deve às características do local: pouco profundo e relativamente protegido da agitação das ondas do mar.

Nesse período de três anos, foram observados mais de seis mil juvenis e recém-nascidos na baía, levando os especialistas a considerar que podemos estar perante o primeiro berçário de diversas espécies de tubarões alguma vez descrito na costa atlântica de África. Por isso, defendem que a baía de Sal Rei é uma zona de grande importância para a sobrevivência destas várias espécies de tubarões ameaçadas, apontando que a sua “proteção efetiva” é da “máxima relevância” para evitar a sua extinção.

Tubarão-leite juvenil.
Foto: Vasco Pissarra (coautor do artigo)

“A relevância da região é claramente reconhecida pela comunidade local de pescadores”, explica Rui Rosa, indicando que a baía é também usada por tartarugas e mamíferos marinhos. “A proteção da baía de Sal Rei será importante não só para os tubarões, mas também para a conservação de toda uma diversidade de organismos marinhos altamente carismáticos e para o uso sustentável dos recursos marinhos na região”, aponta.

No artigo publicado este mês na revista ‘Frontiers in Marine Science’, os autores escrevem que, embora o governo cabo-verdiano tenha aprovado um plano para minimizar os impactos ambientais das atividades humanas sobre a baía, por exemplo, com a regulação da pesca e de desportos náuticos, outras atividades, como a pesca artesanal, a aquacultura, transportes marítimos e projetos de produção de energia renovável continuam a ser permitidos nessa área, e a representar uma ameaça à sobrevivência dos pequenos tubarões.

Além disso, apesar de o plano conter referências à proteção de mamíferos marinhos e das tartarugas, “não são encontradas referências aos tubarões, refletindo a falta de atenção prestada a este grupo taxonómico em particular”, adiantam.

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