Mobilidade rumo a zero emissões: empresas chamadas a liderar a transformação em Lisboa

A mobilidade urbana continua a ser um dos principais desafios na transição climática de Lisboa. Sendo também uma das áreas onde o impacto das empresas pode ser mais determinante.

Green Savers

A mobilidade urbana continua a ser um dos principais desafios na transição climática de Lisboa. Sendo também uma das áreas onde o impacto das empresas pode ser mais determinante. A mais recente sessão das Conversas Lisboa Empresas Sustentáveis, dedicada ao tema “Mobilidade rumo a zero emissões: como podem as empresas responder?”, reuniu representantes do setor público e privado para discutir metas, dados e soluções concretas.

O ponto de partida foi claro: a mobilidade e os transportes concentram uma fatia significativa das emissões da cidade e serão, inevitavelmente, o setor onde o esforço de redução terá de ser mais expressivo na próxima década.

Mobilidade continua a pesar nas emissões da cidade

De acordo com os dados apresentados pela Lisboa E-Nova, o inventário de emissões de gases com efeito de estufa (GEE) revela uma evolução positiva desde 2002, mas também evidencia onde persistem os maiores desafios.

Em 2023, Lisboa registou 1,86 MtCO₂e, uma redução de 16% face a 2019, sendo que o setor dos transportes representa a maior parcela das emissões (cerca de 60% no cenário mais recente). Já em 2019, os transportes eram responsáveis por 49% das emissões totais da cidade.

Os dados por setor e forma de energia mostram que, apesar da redução global, o peso estrutural da mobilidade mantém-se elevado.

A mensagem foi inequívoca: eletrificar é necessário, mas não suficiente.

Aliás, uma das imagens apresentadas durante a sessão ilustra precisamente essa ideia: a substituição de veículos a combustão por elétricos não resolve congestionamento, ocupação do espaço público ou expansão urbana; reduz emissões, mas não elimina outros impactos sistémicos da mobilidade centrada no automóvel.

Metas ambiciosas: 2030 como horizonte crítico

Lisboa definiu como meta reduzir as emissões de GEE em 70% entre 2002 e 2030 e antecipar a neutralidade climática para 2030, através de 80% de redução e 20% de remoções ou compensações. Os cenários do Plano de Ação Climática (PAC 2030) apontam para reduções até 65–68% nas emissões face a 2002, dependendo do cenário considerado
Neste enquadramento, o setor empresarial surge como agente essencial para acelerar a mudança — quer pela gestão das suas frotas, quer pela influência nos padrões de deslocação dos colaboradores e nas cadeias logísticas.

Pacto para a Mobilidade Empresarial: resultados concretos

Um dos momentos centrais da sessão incidiu sobre a experiência do Pacto para a Mobilidade Empresarial de Lisboa (PMEL). Dos 119 subscritores, 51% responderam ao formulário de monitorização, tendo sido implementadas 348 ações, 60% das quais concentradas em três grandes áreas:

  • Promoção do veículo elétrico e instalação de carregadores (A01 / A02);

  • Gestão de estacionamento e carpooling (A04 / A12 / A16);

  • Reuniões remotas e teletrabalho (A25 / A26).

Os dados mostram uma adesão significativa à eletrificação (72% das empresas adotaram veículos elétricos e 57% instalaram carregadores), mas também uma forte aposta em soluções organizacionais, como salas para reuniões remotas (70%) e teletrabalho (26%).

A conclusão é clara: a transição não depende apenas de tecnologia, mas de mudanças comportamentais e organizacionais.

Financiamento: oportunidades para acelerar a transição

Outro eixo relevante do debate centrou-se nas oportunidades de financiamento disponíveis para empresas.

A Equipa Lisboa/Europa 2030 destacou os principais programas sob gestão nacional — como Portugal 2030 (8 projetos, 62 M€ de investimento) e PRR (32 M€) — e diversos instrumentos europeus, como o CEF, Horizonte Europa, EIT Urban Mobility e o Fundo de Inovação.

Entre as áreas prioritárias para PME destacam-se:

  • Eletrificação de frotas

  • Infraestrutura de carregamento

  • Logística de zero emissões

  • Incentivos à compra (2025/2026)

  • Fundo Ambiental – Mobilidade Verde

A recomendação foi acompanhar avisos de abertura do Fundo Ambiental, consultar o portal europeu Funding & Tenders e verificar oportunidades no IAPMEI.

Para além da energia: repensar o modelo urbano

Um dos pontos mais interessantes da sessão foi o reconhecimento de que a mobilidade sustentável vai além da substituição energética. A questão das periferias e da pendularidade foi identificada como desafio estrutural, exigindo articulação metropolitana e soluções multimodais.

A diversificação do mix modal, o reforço do transporte coletivo e a criação de condições para mobilidade ativa surgem como dimensões essenciais para cumprir metas climáticas sem comprometer competitividade.

Empresas como parte da solução

A sessão deixou uma mensagem clara: as empresas não são apenas parte do problema, são parte fundamental da solução.

Ao otimizar frotas, reorganizar operações, incentivar transporte coletivo, adotar políticas de estacionamento sustentável e investir em eletrificação e logística verde, o setor empresarial pode acelerar significativamente o percurso de Lisboa rumo à neutralidade climática.

O desafio é exigente. Mas, como ficou evidente, existem já ferramentas, financiamento e exemplos práticos suficientes para transformar intenção em ação.

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