A missão Artemis II promete fornecer dados inéditos sobre a exposição à radiação no espaço profundo, mas os cientistas alertam que um simples sobrevoo lunar de 10 dias está longe de responder às principais dúvidas sobre os riscos para os astronautas.
De acordo com especialistas envolvidos no estudo da missão, citados em comunicado, esta viagem não permitirá avaliar de forma definitiva impactos de longo prazo, como o risco de cancro, doenças cardiovasculares, efeitos no sistema nervoso central ou na reprodução — questões críticas para futuras missões a Marte.
Uma das principais limitações prende-se com o facto de muitos destes riscos estarem associados a exposições prolongadas a baixos níveis de radiação, algo impossível de simular plenamente numa missão curta. Além disso, a radiação no espaço é um fenómeno complexo, envolvendo partículas solares, raios cósmicos e interações com materiais da própria nave.
Ainda assim, a missão terá um papel fundamental na redução da incerteza científica. Ao recolher dados reais no interior da nave Orion, os investigadores poderão validar modelos teóricos, testar equipamentos de monitorização e relacionar medições físicas com respostas biológicas dos astronautas.
Outro objetivo importante passa por compreender os efeitos da radiação nos sistemas tecnológicos. Partículas energéticas podem afetar eletrónica, danificar sensores e degradar materiais, colocando em risco o funcionamento de naves e equipamentos em missões de longa duração.
Os dados recolhidos irão influenciar diretamente as próximas etapas do programa Programa Artemis. Segundo a arquitetura atual, a missão Artemis III deverá centrar-se em testes em órbita terrestre, enquanto a Artemis IV está prevista como a primeira tentativa de alunagem desta nova fase de exploração.
Mais do que um regresso à Lua, o programa Artemis representa uma transição para uma presença humana mais regular no espaço. Nesse contexto, a radiação surge como um dos principais desafios, exigindo soluções que combinem engenharia, biologia e operações.
Apesar do foco científico, a missão terá também momentos simbólicos. Durante o sobrevoo, os astronautas deverão observar formações marcantes da superfície lunar, como a bacia Orientale, uma enorme cratera com cerca de 930 quilómetros de diâmetro formada há milhares de milhões de anos.
Para os cientistas, porém, o verdadeiro legado da missão não estará nas imagens, mas no mapa detalhado da radiação no interior da nave — informação essencial para preparar futuras viagens humanas mais longas e seguras para além da órbita terrestre.









