Num contexto de alterações climáticas e transformação do mercado vitivinícola, a diversidade das castas portuguesas ganha nova relevância. Longe de um cenário de desaparecimento irreversível, especialistas defendem que o verdadeiro desafio está na valorização e utilização deste património genético. A ciência, a produção e o mercado cruzam-se numa equação decisiva para o futuro do vinho em Portugal.
Em entrevista à Green Savers, Manuel Malfeito Ferreira, docente do Instituto Superior de Agronomia e coordenador científico do Só Castas, afirma que a ideia de extinção aplicada às videiras deve ser relativizada, já que “as castas conhecidas são mantidas nas chamadas coleções ampelográficas, de onde podem ser multiplicadas”. O risco, explica, não está na perda definitiva, mas na falta de interesse produtivo: “o risco é haver castas que não são procuradas pela produção”. Ainda assim, exemplos como a casta Melhorio mostram que o potencial existe e pode ser reativado, sobretudo num mercado que valoriza frescura e diferenciação.
A pressão do mercado continua, no entanto, a ser determinante nas escolhas dos produtores. “As castas mais plantadas são as mais procuradas”, sublinha, apontando para a necessidade de orientar tendências em vez de as seguir. Num cenário de alterações climáticas, o investigador destaca a vantagem da diversidade nacional: “o clima mediterrânico é conhecido pela sua variabilidade, logo estamos no local certo para selecionar as castas de acordo com a sua capacidade de adaptação”. Essa riqueza genética, aliada ao crescente interesse internacional, poderá ser decisiva para garantir a resiliência e competitividade do setor vitivinícola português.
Que castas portuguesas estão atualmente em maior risco de extinção?
Não sei indicar quais são, pois, o conceito comum de extinção não se aplica às castas de videira. As castas conhecidas são mantidas nas chamadas coleções ampelográficas, de onde podem ser multiplicadas, se houver interesse da parte dos viticultores. Logo, o risco é haver castas que não são procuradas pela produção, mas como são mantidas em colecção podem ser recuperadas quando surgir interesse. Dou um exemplo: a casta tinta Melhorio é mantida na Colecção Ampelográfica Nacional, sediada na Estação Vitivinícola Nacional em Dois Portos. É uma casta de ciclo longo, dá origem a vinhos abertos de cor, pouca graduação alcoólica e com elevada acidez fixa. É rara, e pouco conhecida entre os viticultores, mas, pelas suas características, tem um potencial enorme para corresponder às atuais tendências de mercado. Se houver procura, será fácil colocá-la à disposição dos interessados.
Que fatores explicam o desaparecimento progressivo destas variedades?
A falta de interesse por parte da produção. Tendo Portugal mais de 250 castas conhecidas, é pouco provável que todas sejam procuradas.
O abandono agrícola tem tido um impacto significativo nesta perda de diversidade?
Certamente. Muitas destas castas pouco disseminadas aparecem em vinhas velhas, pouco produtivas, que vão sendo deixadas ao abandono por não haver quem as mantenha. A manutenção da viticultura, pela necessidade de mão de obra ao longo ao ano, é, talvez, a principal atividade do setor primário que contraria o abandono rural.
Até que ponto é que a pressão do mercado influencia a escolha das castas plantadas?
É determinante, as castas mais plantadas são as mais procuradas. O desafio é dirigir o mercado e não ir na onda das modas. Nas conferências do Só Castas, evento que aconteceu no último fim de semana, em Lisboa, foi dado um exemplo eloquente, referente à Região de Lisboa. Os oradores, José Eiras Dias, anterior diretor da mencionada Estação de Dois Portos, e o enólogo Vasco Penha Garcia, mostraram o aumento significativo da plantação da casta Arinto pelo país fora, devido à sua aptidão para corresponder à procura de vinhos com mais frescura. Pelo contrário, a casta Vital, apenas presente na região de Lisboa, tem registado um decréscimo na área de plantação, embora produza vinhos com carácter único. O que falta fazer ao Vital? O que foi feito ao Arinto nos últimos 30 anos: selecionar os melhores clones e disponibilizá-los à produção. O resto virá por acréscimo.
Existe, hoje, um conhecimento suficiente sobre o potencial destas castas menos conhecidas?
Já se sabe o potencial de muitas castas chamadas minoritárias, mas trabalho de descoberta não falta!
Que papel têm tido as instituições científicas na sua identificação e preservação?
São fundamentais. Felizmente, existem empresas privadas que têm apostado na plantação de vinhas com castas raras, devido à valorização comercial dos seus produtos.
Que projetos concretos estão em curso para recuperar estas variedades?
Não sei responder com uma lista concreta, mas tenho vários colegas académicos envolvidos nestes projetos por todo o país. Gostaria de mencionar apenas o trabalho incansável dos Professores Antero Martins e Elsa Gonçalves que, através da PORVID (Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira), estão na vanguarda da recuperação do património genético das nossas castas.
Os produtores estão disponíveis para apostar em castas menos comerciais? Em que condições?
A PORVID inclui produtores privados, o que demonstra o seu interesse. Existem muitos outros que têm tido um papel determinante na recuperação de castas ancestrais pela plantação de vinhas novas.
A valorização destas castas pode representar uma oportunidade económica para o setor?
Certamente. Existe uma curiosidade por vinhos de castas raras quem tem sido aproveitada como vantagem competitiva por muitos produtores.
Como tem evoluído a perceção internacional sobre as castas portuguesas?
Existe um interesse crescente por castas portuguesas por todo o mundo vitícola, desde o Oregon, nos Estados Unidos, até à Austrália.
Que interesse têm demonstrado investigadores e produtores estrangeiros? Há exemplos de castas portuguesas a serem estudadas ou cultivadas fora do país?
Nada melhor que os vinhos das castas Alvarinho, Touriga Nacional, Touriga Franca, Vinhão e Tinta Roriz, provados no Só Castas e provenientes de Bordéus e do Languedoc. Quem diria, há um par de anos, que até em França já existiriam vinhos de castas portuguesas?!
De que forma é que a diversidade genética portuguesa pode responder aos desafios das alterações climáticas?
O clima mediterrânico é conhecido pela sua variabilidade, logo estamos no local certo para selecionar as castas de acordo com a sua capacidade de adaptação. Já no século XVI, Ruy Fernandes reconhecia a vantagem da diversidade quando afirmava “em anos que não dão umas, dão outras”.
O reconhecimento internacional pode contribuir para a preservação destas castas em Portugal?
Concerteza, nada melhor do que o estímulo da procura internacional para levar instituições e empresas a manter este património único.
O que é que falta fazer para garantir a sobrevivência deste património vitivinícola? Estamos a tempo de evitar a perda irreversível de algumas destas variedades?
O que tem sido feito é prova de que temos o saber e o empenho para garantir o futuro das nossas castas. A questão é que a riqueza da diversidade torna mais difícil explorar todas as hipóteses. Aliás, os últimos dados genéticos indicam que temos bastante mais do que as conhecidas 250 castas. Mãos à obra!









