Uma investigação da Universidade Monash, na Austrália, concluiu que a osga Underwoodisaurus seorsus, uma das espécies de répteis menos conhecidas do país, enfrenta um risco crescente de extinção devido às alterações climáticas.
O estudo, publicado na revista científica Pacific Conservation Biology, apresenta a primeira avaliação abrangente desta espécie endémica da cordilheira de Hamersley, na região de Pilbara, no estado da Austrália Ocidental. A investigação combinou cinco meses de trabalho de campo, análises de habitat, estudo da biologia da espécie e modelação climática para avaliar o seu estado de conservação.
Conhecida pelo seu característico som semelhante ao latido de um cão quando se sente ameaçada ou surpreendida, a osga-latidora de Pilbara distingue-se também pela preferência por zonas montanhosas e mais frescas, ao contrário da maioria dos répteis, que prosperam em ambientes mais quentes.
Até ao início desta investigação, existiam apenas 55 registos confirmados da espécie.
Habitat poderá desaparecer nas próximas décadas
Segundo Robert Audcent, licenciado com distinção em Ciências pela Universidade Monash e coordenador do projeto, a preferência da espécie por áreas elevadas revelou-se uma pista fundamental para compreender a sua vulnerabilidade.
“A região de Pilbara deverá registar um aumento significativo das temperaturas nas próximas décadas. Os modelos climáticos preveem uma ameaça grave e iminente à sobrevivência da espécie”, afirma Robert Audcent.
“O habitat de refúgio fresco de que estas osgas dependem está a desaparecer e os nossos modelos sugerem que quase todo o habitat adequado poderá desaparecer nas próximas décadas”, acrescenta.
Durante o último ano, Audcent percorreu montanhas e desfiladeiros remotos da região de Pilbara, realizando expedições noturnas para localizar exemplares desta espécie rara.
O trabalho permitiu identificar dez novas populações e 87 indivíduos, expandindo significativamente o conhecimento sobre a distribuição geográfica da espécie e sobre as suas preferências ecológicas.
Proposta de classificação como espécie ameaçada
Na sequência das novas descobertas, os investigadores propuseram a inclusão da osga na categoria de espécie em perigo ao abrigo da legislação de conservação da biodiversidade da Austrália Ocidental.
Caso a proposta seja aceite, a espécie passará a ser considerada em avaliações de impacto ambiental e beneficiará de programas de monitorização e conservação mais rigorosos.
Jules Farquhar, investigador sénior do Chapple Lab da Universidade Monash, alerta que muitas espécies classificadas como “dados insuficientes” podem enfrentar ameaças semelhantes sem que estas sejam devidamente identificadas.
“As espécies de répteis com informação insuficiente apresentam frequentemente necessidades de conservação equivalentes às das espécies ameaçadas, e muitas podem estar a sofrer declínios populacionais rápidos”, afirma.
“A Austrália alberga cerca de 10% das espécies de répteis do mundo, sendo que mais de 90% não existem em mais nenhum local. Deixar espécies pouco estudadas sem proteção pode resultar em extinções silenciosas e em graves desequilíbrios ecológicos”, acrescenta.
O investigador sublinha ainda que muitas destas espécies recebem pouca atenção científica e são frequentemente consideradas seguras por falta de informação.
“Esta investigação demonstra que até uma espécie anteriormente classificada como sendo de ‘menor preocupação’ pela União Internacional para a Conservação da Natureza pode enfrentar ameaças significativas que só se tornam evidentes através de investigação direcionada”, refere.
O estudo reforça os alertas da comunidade científica sobre o impacto das alterações climáticas na biodiversidade, particularmente em espécies raras e pouco estudadas, cujas ameaças podem permanecer invisíveis até que o seu declínio seja já difícil de travar.









