Uma das mais importantes engrenagens do sistema climático da Terra está a enfraquecer devido às alterações climáticas. A conclusão é de um novo estudo liderado por investigadores da Universidade da Tasmânia, na Austrália, que revela que a Água de Fundo Antártica (Antarctic Bottom Water – AABW), responsável por preencher cerca de 40% do volume dos oceanos do mundo, está a diminuir a um ritmo acelerado.
Publicado na revista científica Geophysical Research Letters, o trabalho mostra que o volume desta massa de água fria e densa diminuiu de forma contínua entre 2002 e 2023, registando uma aceleração significativa da perda após 2015. Segundo os investigadores, em 2023 o volume total era cerca de 3% inferior ao registado no início do período analisado.
A Água de Fundo Antártica forma-se junto ao continente antártico, quando a formação de gelo marinho durante o inverno deixa para trás água extremamente salgada e densa, que afunda até às profundezas oceânicas. A partir daí, espalha-se lentamente pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, desempenhando um papel crucial na circulação oceânica global.
Além de transportar oxigénio para as profundezas marinhas, esta massa de água funciona como um importante reservatório de calor e dióxido de carbono, ajudando a moderar os efeitos do aquecimento global. Por isso, qualquer alteração no seu funcionamento pode ter consequências duradouras para o clima do planeta.
“Um dos sistemas mais importantes de regulação climática da Terra está a enfraquecer de forma mensurável em resposta ao aumento da entrada de água doce proveniente de uma Antártida em aquecimento e à redução da formação de gelo marinho”, afirma James Wyatt, autor principal do estudo e investigador da Australian Antarctic Program Partnership.
Os cientistas relacionam a redução da Água de Fundo Antártica com a rápida diminuição da extensão do gelo marinho observada desde 2016. O aumento do degelo e a entrada de água doce no Oceano Austral tornam as águas superficiais menos salgadas e, consequentemente, menos densas, dificultando o seu afundamento e reduzindo a formação desta massa de água profunda.
A investigação conclui ainda que o fenómeno está a ocorrer em toda a Antártida, embora com maior intensidade no Mar de Weddell, uma das principais regiões produtoras de Água de Fundo Antártica.
Para chegar a estas conclusões, a equipa desenvolveu um novo sistema de monitorização denominado SatGEM-2, que combina observações por satélite com dados recolhidos por navios científicos e boias oceânicas. O modelo permitiu reconstruir, pela primeira vez, uma visão abrangente da evolução da Água de Fundo Antártica em torno de todo o continente antártico ao longo de mais de duas décadas.
Segundo os autores, os sinais observados – aquecimento, diminuição da salinidade, redução dos níveis de oxigénio e perda de volume – apontam todos na mesma direção: um abrandamento da circulação profunda dos oceanos.
“Estas múltiplas evidências demonstram que as alterações climáticas já estão a modificar as regiões mais profundas dos oceanos do mundo, com consequências a longo prazo para a circulação oceânica, o transporte de calor e o armazenamento de carbono”, alerta Nathan Bindoff, coautor do estudo e investigador do Institute for Marine and Antarctic Studies.
Os cientistas sublinham que as mudanças agora identificadas poderão influenciar o clima global e a subida do nível do mar durante séculos, reforçando a importância de continuar a monitorizar o Oceano Austral, uma das regiões mais remotas e menos observadas do planeta.









