Daan Roosegaarde: “Se não somos capazes de imaginar um futuro mais sustentável, não seremos capazes de criá-lo”



Em entrevista exclusiva ao Green Savers, o artista e inovador holandês Daan Roosegaarde dá a conhecer a sua opinião sobre o papel da arte e a sua importância para um futuro mais sustentável. Há 14 anos que através do Studio Roosegaarde e da sua equipa de designers e engenheiros trás ao mundo vários projetos que unem a criatividade, a tecnologia e a natureza, contribuindo para as paisagens do futuro.

O artista considera que há muito mais a fazer em termos de sustentabilidade, e que a arte e o design têm um papel muito importante nesse campo. “Se não somos capazes de imaginar um futuro mais sustentável, não seremos capazes de criá-lo” sublinha, reforçando a força que a imaginação tem no desenvolvimento do amanhã.

Conheça nesta pequena entrevista um pouco mais sobre Daan Roosegaarde e sobre a sua opinião de como a arte pode impulsionar a sustentabilidade ambiental:

O que o inspira a criar projetos que contribuem para um futuro mais sustentável?

É muito simples, se não podemos imaginar um futuro melhor também não seremos capazes de o criar, certo? Então, primeiro temos de o imaginar, de sonhar, a fim de construir, projetar e de criar um protótipo. Existe um poder nas novas ideias e eu acho isso muito interessante, tu tens uma ideia e dá-la a conhecer e esta resigna-se entre as pessoas e começa a crescer. Muitos dos problemas que estamos a enfrentar, quando olhamos para as alterações climáticas, para o aumento do nível do mar, para o CO2, para a poluição, para o lixo espacial, isto é um tipo de design mau, mas nós é que o criámos, certo? Não a mãe natureza… então nós podemos fazer duas coisas, podemos nos esconder, chorar numa sala, culpar outra pessoa, ou dizer “bem, nós criamos isto, vamos projetar, vamos resolver uma maneira de sair daqui”. Muitos dos meus projetos são meio que propostas para essa atualidade, para se falar, uma atualização da realidade.

Quando é que os começou a criar? Porquê?

Eu gosto de ser um criador, não apenas um consumidor. Quando tu és uma criança constróis cabanas nas árvores ou, não sei, constróis coisas, certo? Isso é o que nós fazemos, nós criamos. E eu acho que a mentalidade permanece a mesma quando crescemos. O mundo não é estático, mas foi influenciado pelas tuas ações, positivas e negativas, e… sim, então é com base na inspiração, mas também na frustração; “por que há poluição? por que temos postes de luz acesos a noite toda quando não há ninguém?” Isso é realmente estúpido, não podemos fazer melhor? É aí que começa… tu colocas algumas pessoas numa sala com o número direto da pizza na porta (“pizza hotline”) e começas a trabalhar. Por isso é que também comecei o estúdio, porque eu tinha todas estas ideias e todos me diziam que não eram possíveis… e eu acho que são.

Quando os começou a criar, pensava neles de uma forma local, ou projetava-os a pensar de uma maneira a nível mundial? 
Ah, sim… as fronteiras não importam na realidade. Acho que no começo fazemos isto por nós mesmos, porque queremos criar algo, torná-lo significativo, então existe um eu, mas também existe um nós. E tu pensas “ah, isto também vai melhorar a vida de muita gente”… então, é sempre um equilíbrio. Eu acho que a maioria dos projetos não são movidos pela tecnologia, mas sim mais pela curiosidade.

Ao longo do tempo tem ganho muitos prémios e os seus projetos têm sido reconhecidos em todo o mundo. Nesse sentido, sente-se mais responsável por lutar contra a crise ambiental e/ou para mudar o mundo?
Bem… eu sinto-me responsável por garantir que as ideias que tenho na minha cabeça se tornam realidade. Acho que no mundo não há passageiros, somos todos tripulantes, então tu tens um papel, eu tenho um papel responsável… É assim, eu agora consigo fazer mais. Quando eu começo um projeto há mais confiança, os sócios dizem que sim e as pessoas querem colaborar… mas quando podemos fazer mais também queremos fazer mais (risos) é assim que funciona, certo? Portanto, há alguma responsabilidade de fazer com que as ideias se tornem realidade, mas no final cabe a uma sociedade abraçá-las e investir nelas para fazê-las realmente crescer. Por isso, eu espero que o projeto seja parte de um novo padrão. E eu penso que o ar limpo e a água potável devem ser um padrão nas nossas vidas diárias quando se projeta uma cidade, ou um carro, ou uma peça de moda, ou uma ponte… então espero que eles inspirem, mas também espero que eles estimulem outras pessoas e sim, isso é parte da minha responsabilidade… mas não apenas minha.

Digamos que é uma pressão positiva, certo?

Sim, claro, e acho que os prémios realmente ajudam porque são estimuladores, não são decoração. Então, para mim, quando se ganha um prémio é um verdadeiro incentivo também para os sócios colaboradores, eles ficam bem e têm orgulho, e isso cria espaço para experimentar ainda mais. Isso tem realmente muito poder porque quando tu fazes algo novo, ainda no início, há sempre algumas pessoas que perguntam “isso é possível? é permitido?” e quando finalmente está feito, há sempre quem diga “oh, já deverias ter feito isto antes” ou “poderia estar também em outros lugares”… por isso estes prémios ajudam a deixar as pessoas mais confortáveis ​​com novas ideias, sim, são uma ótima ferramenta. Mas ao mesmo tempo sim, as pessoas deveriam apenas confiar em mim e deixar-me fazer minhas coisas (risos). (…) Mas os prémios aceleram os processos e fazem com que as pessoas que colaboram connosco se sintam mais confortáveis, sem dúvida.

Pode-nos contar mais sobre os projetos que estão por vir?

Um dos projetos mais recentes que estamos a desenvolver agora é parte das séries DreamScapes: um DreamScape é um sonho que se torna realidade para melhorar a vida, então o GROW foi o primeiro, e o Urban Sun foi o segundo. Agora, estamos a criar o terceiro… que na verdade é sobre “celebrar a escuridão”. Vamos apagar uma cidade inteira, todas as luzes da rua, para que as pessoas possam celebrar a escuridão e apreciar as estrelas. Às vezes é sobre adicionar e criar coisas, outras vezes é sobre remover coisas. E, claro, a relação com a natureza sempre foi importante, os elementos da natureza.

Desligar as luzes da rua é muito interessante porque essa ideia de olhar para as estrelas na nossa própria rua é realmente uma nova forma de comemorar juntos como uma comunidade. Vocês irão ver muitos mais projetos que utilizarão o poder da luz para trazer o bem-estar num sentido mais amplo.

De que maneira acha que a arte pode contribuir para um futuro mais sustentável, verde e resiliente?

Se não podemos imaginar um futuro mais sustentável, não seremos capazes de criá-lo. Muitas vezes, quando as pessoas falam sobre o futuro na Europa falam sobre fazer menos, menos carbono, menos carros, menos poluição… e isso é muito estranho para as gerações mais jovens como nós, que querem fazer mais, não menos. Imagina que tens uma relação, com o teu marido, o teu namorado, a tua avó, quem quer que seja, e dizes “ok amor da minha vida, este ano vamos fazer 5% menos pior”, provavelmente, ele ou ela deixava-te. Esta é uma maneira estranha de descrever um relacionamento, mas é assim que nós descrevemos a nossa relação com o futuro e com o clima. Então isso é problemático, não é? Isto começa já aí; devemos fazer menos, mas também devemos fazer mais.

Eu acho que quando visualizamos isso, como o “Rising sea level” ou o “Urban Sun“, vemos que podemos criar lugares que são mais seguros e melhores para nos encontrarmos, ou por exemplo vê como podemos ajudar as colheitas a crescerem de maneira mais sustentável (projeto Grow), esse é um estímulo real. As pessoas não mudam por causa dos números ou por fazerem menos, elas querem fazer mais. Eu acho que os políticos deveriam sem dúvida trabalhar e comunicar mais com os designers e com os artistas, de maneira a envolverem as pessoas a um nível mais emocional, não apenas mental. Há orçamento para a União Europeia repensar a sustentabilidade e acho que o papel da arte e do design é realmente importante nesse campo, para inspirar, mas também para simbolizar e visualizar. Acho que isso não está a acontecer de forma suficiente e acho que esse é o problema da Europa, nós realmente não falamos sobre o futuro, raramente o fazemos. (…) Eu acho que as artes e o design podem ajudar a tornar as pessoas mais curiosas sobre o futuro, em vez de tristes ou óbvias, e mais divertidas e envolvidas no assunto. Não falta dinheiro e tecnologia, falta imaginação.

Qual é o seu lema de vida?

Acredita nas tuas ideias e acredita nos teus sonhos, e depois, torna-os realidade. Isso é muito importante. Há um poder real nas ideias e as boas ideias crescem, então se tu podes imaginar algo, podes criá-lo. Talvez devas simplesmente ir lá e fazê-lo.

 

Conheça aqui alguns projetos do artista:

Para mais informações, visite a página.





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