Esta população de elefantes-marinhos da Argentina precisa de mais de 100 anos para recuperar da devastação da gripe aviária

Em 2023, um surto de gripe aviária dizimou a população de elefantes-marinhos da Península de Valdés, na Argentina, matando milhares de crias e um ainda desconhecido número de adultos. Os cientistas dizem que o futuro da colónia gera preocupação, uma vez que a sua recuperação pode demorar muito tempo.

Filipe Pimentel Rações

Entre 2000 e 2022, a colónia de elefantes-marinhos-do-sul (Mirounga leonina) na Península de Valdés, na Argentina, cresceu 0,9%, alcançando um total estimado de 18 mil fêmeas reprodutoras. No entanto, em 2023, a gripe aviária, provocada pelo vírus H5N1, causou a morte de 17.500 crias, quase todas as que nasceram nesse ano nessa população, e de um número ainda desconhecido de adultos.

Se o surto viral tivesse afetado apenas as crias, a colónia poderia recuperar e voltar aos números de 2022 entre 2029 e 2051. Isto, porque a mortalidade infantil nos primeiros tempos de vida das crias costuma já ser naturalmente muito elevada nessa espécie. Contudo, se uma parte significativa das fêmeas em idade reprodutora sucumbiu à doença, então a recuperação só será possível m 2091.

Elefantes-marinhos na Península de Valdés, Argentina, afetado pela gripe aviária em outubro de 2023. Foto: Marcela Uhart – UC Davis.

O cenário pode ser ainda mais preocupante se o surto tiver ceifado a vida de um número elevado de machos reprodutores, algo que, combinado com a mortalidade das fêmeas, dificultaria grandemente a recuperação da colónia. Nesse caso, essa população de elefantes-marinhos só regressaria aos números de 2022 algures em meados do próximo século.

As estimativas são avançadas por uma equipa de investigadores liderada pela divisão argentina da organização não-governamental internacional Wildlife Conservation Society (WCS), em parceria com o centro de investigação CESIMAR-CONICET e a Universidade da Califórnia em Davis. Num artigo publicado na revista ‘Marine Mammal Science’, os especialistas avançam uma série de cenários para tentar prever quando a população da Península de Valdés poderia voltar a ser o que era antes da devastação causada pela gripe aviária.

Em 2024, o número de fêmeas reprodutoras nas praias desse local era 67% inferior ao que se registara há três anos. De 6.938 fêmeas em 2022 passou-se para 2.256 apenas dois anos depois.

Embora admitam que essa diferença se possa dever a vários fatores, como atrasos na chegada dos animais à praia ou a colonização de outros locais, os investigadores argumentam que o cenário mais provável aponta para uma elevada mortalidade dos adultos devido ao surto viral.

Uma população que antes se considerava saudável e com um crescimento estável em poucas semanas converteu-se numa que gera grande preocupação entre os conservacionistas e cujo futuro é incerto.

Em comunicado, avisam que “o risco de doenças infeciosas afetarem populações naturais pode aumentar com o agravamento das alterações climáticas”.

Valeria Falabella, diretora de conservação de animais costeiros e marinhos da WCS-Argentina e coautora do estudo, recorda que “com décadas de crescimento, os elefantes-marinhos da Península de Valdés eram uma população saudável e protagonizavam incríveis espetáculos naturais”. Assim era, “até a gripe aviária de 2023 ter deixado milhares de crias mortas e lágrimas nos nossos olhos”, lamenta.

Os cenários de recuperação avançados por esta equipa têm por base dados demográficos recolhidos ao longo de décadas de trabalho de monitorização da população de elefantes-marinhos daquela península argentina, algo que os cientistas dizem ser indispensável que continue a ser feito para acompanhar de perto a evolução da colónia.

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