Árvores, arbustos e relvados podem reduzir sensação térmica nas cidades em até dois graus

Publicado na revista científica Urban Climate, o trabalho analisou o potencial de arrefecimento de 13 diferentes configurações de árvores, arbustos e relvados em zonas centrais das cidades de Townsville e Ipswich, no estado australiano de Queensland.

Redação

Um novo estudo realizado por investigadores da James Cook University e da University of the Sunshine Coast, na Austrália, concluiu que uma melhor conceção da vegetação urbana ao longo das ruas pode reduzir significativamente o calor sentido pelos peões durante os meses mais quentes.

Publicado na revista científica Urban Climate, o trabalho analisou o potencial de arrefecimento de 13 diferentes configurações de árvores, arbustos e relvados em zonas centrais das cidades de Townsville e Ipswich, no estado australiano de Queensland. Os resultados mostram que uma distribuição mais eficiente da vegetação pode melhorar o conforto térmico em até dois graus Celsius.

Os investigadores avaliaram o efeito das diferentes soluções ao longo de um ciclo de 24 horas, tendo concluído que o desenho ideal varia entre regiões de clima subtropical, como Ipswich, e tropical, como Townsville.

Ainda assim, algumas estratégias revelaram-se particularmente eficazes em ambos os contextos, nomeadamente a plantação de árvores no centro das ruas, a criação de diferentes camadas verticais de vegetação e a concentração de mais árvores no lado poente das vias, mais exposto à radiação solar durante a tarde.

“O calor urbano afeta tanto o nosso bem-estar físico como mental, aumentando o risco de diversos problemas de saúde”, explica Jiawei Fu, primeira autora do estudo, doutorada pela James Cook University e atualmente investigadora visitante na University of the Sunshine Coast.

“Se estiver demasiado calor, reduzimos as atividades ao ar livre, afeta a qualidade do sono e diminui a produtividade”, refere. “O calor torna os espaços urbanos menos atrativos e menos acessíveis, sobretudo para grupos mais vulneráveis, como idosos e crianças.”

Reduções pequenas, impacto significativo

A investigação utilizou como principal indicador a Temperatura Equivalente Fisiológica (PET, na sigla em inglês), uma medida que combina temperatura do ar, velocidade do vento, humidade relativa e radiação solar para estimar a forma como o corpo humano sente o calor.

“A PET é uma espécie de ‘temperatura aparente’ — a temperatura que sentimos, mais do que a temperatura real do ar”, explica Jiawei Fu.

Segundo a investigadora, “uma redução de apenas um a dois graus Celsius na PET pode fazer uma diferença percetível durante episódios de calor extremo”.

“O corpo humano sente realmente essa diferença”, acrescenta.

Mais qualidade de vida nas cidades

O estudo foi realizado em ruas centrais de Ipswich e Townsville, onde a cobertura vegetal atual varia entre 0% e 6%, valores considerados baixos quando comparados com metas de arborização definidas por outras cidades australianas.

Os autores reconhecem que a criação e manutenção de espaços verdes urbanos implica custos, mas defendem que os benefícios compensam o investimento, sobretudo num contexto de alterações climáticas e aumento das temperaturas.

“O nosso estudo identifica formas de plantar vegetação com a melhor disposição possível para reduzir o calor urbano nos espaços limitados disponíveis”, sublinha Jiawei Fu.

Além de melhorar o conforto térmico, a vegetação urbana pode também reduzir a dependência do ar condicionado e os respetivos consumos energéticos, contribuindo simultaneamente para o bem-estar psicológico dos cidadãos.

“Não só pode reduzir a dependência do ar condicionado e ajudar a baixar os custos energéticos, como caminhar em espaços verdes pode fazer-nos sentir muito melhor. Melhora o nosso bem-estar mental e ajuda a reduzir o stress”, conclui a investigadora.

Os resultados reforçam a importância de integrar soluções baseadas na natureza no planeamento urbano, numa altura em que muitas cidades procuram estratégias sustentáveis para se adaptarem ao aumento das temperaturas e aos efeitos das alterações climáticas.

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