Uma jovem coala tornou-se o primeiro exemplar selvagem da espécie a receber um implante biodegradável capaz de administrar automaticamente a segunda dose de uma vacina contra a clamídia, uma das doenças que mais ameaça as populações de coalas na Austrália.
O procedimento, considerado pelos investigadores um “avanço enorme”, foi realizado numa fêmea de 18 meses chamada Bamse, capturada na região de Burleigh, no estado de Queensland. Após ser observada e sedada no Hospital de Vida Selvagem de Currumbin, recebeu a primeira dose da vacina e um implante concebido para libertar a segunda dose cerca de 30 dias depois.
No próprio dia da intervenção, a coala foi devolvida ao seu habitat natural, onde está agora a ser monitorizada através de uma coleira com GPS. O acompanhamento deverá prolongar-se por, pelo menos, seis meses, permitindo avaliar a eficácia da nova tecnologia.
O projeto é liderado pela Universidade de Tecnologia de Queensland (QUT) e pelo Hospital de Vida Selvagem de Currumbin, contando com o apoio da organização ambiental WWF Austrália.
Menos stress para os animais, maior alcance da vacinação
Até agora, a vacina contra a clamídia utilizada em coalas exigia duas capturas: uma para a administração da primeira dose e outra, cerca de quatro semanas depois, para a dose de reforço.
O novo implante biodegradável elimina essa necessidade, reduzindo significativamente o stress para os animais e tornando as campanhas de vacinação em larga escala mais simples e viáveis.
Segundo os investigadores, cinco coalas selvagens da região de Burleigh já receberam o implante. Bamse e outro animal foram entretanto recapturados para avaliações de rotina após um mês, não apresentando sinais de infeção por clamídia.
“Trabalhamos com vacinas contra a doença clamidial em coalas há mais de cinco anos e este é um avanço enorme, porque estamos a transformar uma vacina de duas injeções numa combinação de injeção e implante que pode ser administrada numa única observação. É verdadeiramente um momento notável”, afirma Michael Pyne, veterinário sénior do Hospital de Vida Selvagem de Currumbin, citado em comunicado.
Resultados animadores na recuperação das populações
A vacina já foi administrada a mais de 500 coalas em centros de recuperação de fauna selvagem em Queensland.
Um dos exemplos mais promissores surgiu na região de Elanora, na Gold Coast, onde mais de 70% dos coalas admitidos no hospital apresentavam infeção por clamídia em 2020.
De acordo com os responsáveis pelo projeto, as admissões relacionadas com a doença naquela área diminuíram 75% desde então. Paralelamente, registaram-se 41 nascimentos de crias e 13 nascimentos de “netos” desses animais, num local anteriormente considerado um dos mais afetados pela doença no estado.
A clamídia é uma das principais ameaças à sobrevivência dos coalas, podendo provocar cegueira, infertilidade e infeções graves que frequentemente conduzem à morte.
Relatório recomenda vacinação em larga escala
O anúncio surge numa altura em que um relatório independente elaborado para o Governo de Queensland concluiu que a vacina desenvolvida pela QUT demonstrou “reduções substanciais da doença clamidial e da mortalidade em coalas selvagens vacinados” e que a vacinação é “operacionalmente viável em larga escala”.
O estudo, conduzido por Lyndal Hulse, da Universidade de Queensland, analisou mais de 1.100 coalas e identificou várias regiões do sudeste de Queensland como prioritárias para futuras campanhas de vacinação devido à elevada prevalência da doença.
A cidade de Logan apresentou os níveis mais elevados de infeção, com 58% dos animais afetados por clamídia ocular e 56% por infeções do trato urogenital.
Segundo a investigadora, os resultados obtidos até agora demonstram claramente o potencial da vacina. “Quando analisamos a eficácia da vacina através dos dados recolhidos pelo Hospital de Vida Selvagem de Currumbin, a redução da carga de infeção e da doença causada pela clamídia é bastante evidente ao nível populacional.”
Tecnologia poderá beneficiar outras espécies
Além da aplicação em coalas, os investigadores acreditam que o implante poderá vir a ser adaptado para outras vacinas e medicamentos veterinários que exijam múltiplas doses.
Freya Russell, investigadora da QUT envolvida no projeto, considera que a tecnologia poderá ter impacto muito para além da conservação dos marsupiais australianos.
“O que torna este implante tão entusiasmante é a sua versatilidade. Pode ser adaptado a uma ampla gama de vacinas ou medicamentos para animais que normalmente exigiriam várias doses”, explica.
A investigadora acrescenta que já decorrem contactos com grupos de investigação ligados à fauna selvagem e à pecuária, sendo que vários produtores agrícolas manifestaram interesse na tecnologia pela possibilidade de simplificar a vacinação de bovinos.
Para a WWF Austrália, a inovação representa uma nova esperança para uma espécie que continua a enfrentar múltiplas ameaças, desde doenças à perda de habitat.
“Precisamos de combater a clamídia e, ao mesmo tempo, restaurar e proteger os habitats dos coalas se quisermos evitar que a espécie se aproxime ainda mais da extinção”, defende Tanya Pritchard, responsável pela recuperação dos coalas na organização ambiental.









