Cientistas da Universidade de Melbourne descobriram que os membros anteriores dos marsupiais começam a desenvolver-se antes do nascimento muito mais cedo do que se acreditava. A investigação, publicada na revista científica Science Advances, lança nova luz sobre a evolução destes mamíferos e sobre os mecanismos biológicos responsáveis pela formação dos membros.
Os marsupiais, grupo que inclui cangurus, coalas, vombates e o diabo-da-Tasmânia, nascem num estado extremamente imaturo. Apesar disso, as crias dependem de membros anteriores fortes e funcionais para se deslocarem sozinhas até à bolsa materna e alcançarem a mama pouco depois do nascimento.
Segundo o autor principal do estudo, Axel Newton, da Escola de Biociências da Universidade de Melbourne, os resultados revelam aspetos surpreendentes da biologia destes animais.
“Verificámos que os membros anteriores dos marsupiais se desenvolvem rapidamente ao longo de um período de apenas quatro dias, passando de uma estrutura simples e indiferenciada para braços totalmente funcionais, com garras. Esta descoberta desafia profundamente o conhecimento atual sobre o desenvolvimento dos membros nos vertebrados”, explicou o investigador.
A equipa concluiu que estas estruturas surgem numa fase extremamente precoce do desenvolvimento embrionário, antes mesmo da formação de importantes componentes corporais, como os somitos e o tubo neural, considerados elementos fundamentais para a construção do organismo.
Em colaboração com investigadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), os cientistas analisaram duas espécies de marsupiais evolutivamente distantes: Sminthopsis crassicaudata e Monodelphis domestica. O objetivo foi estudar a atividade genética após a fertilização e compreender de que forma se inicia a formação dos membros.
Os resultados desafiam a ideia tradicional de que o crescimento dos membros segue uma sequência fixa e uniforme. Nos marsupiais, alguns dos processos observados noutras espécies parecem ser reorganizados ou mesmo ultrapassados, demonstrando uma flexibilidade inesperada no desenvolvimento embrionário.
“Grande parte do que sabemos sobre o crescimento dos membros resulta de estudos realizados em galinhas e ratos, nos quais vários tecidos se desenvolvem simultaneamente. Nos marsupiais, o desenvolvimento isolado dos membros oferece uma oportunidade única para compreender como estas estruturas surgem pela primeira vez”, afirma Newton.
Os investigadores acreditam que esta descoberta poderá também ajudar a compreender melhor a origem de determinadas malformações congénitas dos membros em seres humanos.
A investigação foi conduzida no Laboratório Pask da Universidade de Melbourne, em parceria com a empresa de biotecnologia Colossal Biosciences.
Para Andrew Pask, diretor do laboratório, compreender a forma como a evolução moldou o desenvolvimento dos marsupiais é fundamental para a sua conservação.
“Se não compreendermos a biologia destes animais, não conseguiremos entender plenamente as suas vulnerabilidades, a sua capacidade de adaptação ou a melhor forma de intervir quando uma espécie se encontra em risco”, afirma o investigador. “Este estudo demonstra como a biologia do desenvolvimento pode contribuir diretamente para os esforços de conservação.”









